Onde você estava quando...?
Martha Medeiros
Em 31 de outubro de 1996, eu trabalhava no Jornal do Almoço. Havia recém-chegado ao estúdio quando soube que um Fokker havia caído segundos depois de decolar de Congonhas. Toda a pauta foi reformulada. A edição daquele dia virou um plantão, só se falou sobre o desastre. Quando saiu a lista de passageiros, descobri o nome de um amigo, mas não me apavorei, confiante na quantidade de homónimos que há no Brasil. Dei um telefonema e descobri que não era ele.
Em 29 de setembro de 2006, eu estava chegando a uma festa quando soube que um jato da Gol havia sido atingido por outra aeronave em pleno ar e caído em Goiás. Senti um mal-estar, mas segui com os planos de me divertir.
Em 17 de julho de 2007, eu estava assistindo ao Jornal Nacional quando deram a noticia do voo da TAM que, ao aterrissar, atravessou a pista e colidiu contra um prédio numa avenida ao lado do aeroporto. Gelei quando soube que o voo partira de Porto Alegre. Haveria alguém conhecido a bordo? Liguei para alguns amigos que viajavam com frequência para São Paulo e recebi chamadas também: formou-se uma corrente de afeto e solidariedade.
Os três acidentes aéreos citados acima foram dissecados no livro Perda Total, de Ivan Sant'Ana, que já havia escrito o ótimo Caixa Preta. É uma leitura emocionalmente difícil, mas que relata algo que faz parte da rotina de um número crescente de pessoas - voar. Cada vez que entramos num avião, estamos 100% entregues ao destino, o que não acontece num carro, onde podemos manobrar, frear, saltar, enfim, interferir de alguma forma. Dentro de um avião, só nos resta a inércia. Talvez por isso as vítimas de acidentes aéreos nos comovam tanto.
Mas nada se compara à tragédia de 11 de setembro de 2001. Um assassinato premeditado e transmitido ao vivo através de imagens que até hoje parecem efeitos de computador. Onde você estava naquele dia? Eu estava escrevendo em casa quando minha funcionária chegou para trabalhar e sugeriu que eu ligasse a tevê. "Está acontecendo alguma coisa nos Estados Unidos." Liguei a tempo de ver os prédios do WTC virem abaixo. Era uma terça-feira, e eu já havia mandado para Zero Hora o texto da minha coluna de quarta, que tratava de um assunto idiota. No dia seguinte, qualquer assunto que não fosse o atentado seria idiota. Telefonei para o editor e pedi que ignorasse, em poucos minutos enviaria outro, mesmo que eu não tivesse a menor ideia sobre o que escrever. Com um notebook no colo e o olhar grudado na tevê, só me ocorreu refletir sobre nossa vulnerabilidade.
É praxe perguntar: onde você estava quando mataram Kennedy? Onde você estava quando mataram Lennon? Recordar onde estávamos é entender que fazemos parte até do que não nos acontece diretamente. Onde estávamos? Estávamos vivendo o cotidiano de um dia que havia começado comum, como começam todos os dias, até que fomos atingidos - também.
Domingo, 11 de setembro de 2011.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.